O Tempo Saquarema: Dialética entre
um grupo e a formação de um Estado
O livro
foi o resultado da tese de doutorado de Ilmar
Rohloff de Mattos, que foi apresentada ao Departamento de
História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, em 1985. No ano seguinte recebeu o
Prêmio Literário Nacional, na categoria obras inéditas, do
Instituto Nacional do Livro. Atualmente é professor de graduação e
pós-graduação da PUC - Rio.
Na
apresentação, o autor deixa pistas de suas inquietações e de como
pensou e desenvolveu o trabalho. O livro está dividido em três
capítulos onde o autor privilegia, como objeto de pesquisa, o
estudo sobre um grupo conservador conhecido como Saquaremas, sem,
no entanto, furtar-se de também analisar os Luzias. Foi levantada a
hipótese de que imbuídos pelas idéias liberais, importadas de uma
Europa “civilizada”, os saquaremas articularam,
produziram e consolidaram um Estado Imperial, assim como uma classe
senhorial.
Foi
na escolha de seus objetivos que Ilmar garante o caráter inédito do
trabalho. Procurou compreender, como explicado na orelha do livro,
os processos de construção do Estado imperial e de constituição da
classe senhorial, nos termos de uma restauração e de uma expansão,
e demonstrar a relação necessária, mas não natural, entre ambos os
processos, relação propiciada pela intervenção consciente e
deliberada de determinada força social, a qual se forja a si
própria como dirigente do movimento dessa intervenção Saquaremas.
Para tanto recorre a uma postura teórica situada no campo da
história político-social, se distanciando da historiografia,
produzida até então, que difundia a idéia de continuidade; que
explicava esse período apenas pelo viés econômico, ignorando os
conflitos e confrontos políticos.
Explica
que usou os conceitos de Estado Imperial e classe senhorial,
articulados por um conceito de direção saquarema. Salienta que o
conceito de Estado Imperial não está relacionado a um poder
vertical, Estado oprimindo um povo, e sim como um mecanismo usado
pela direção saquarema para impor uma ordem no espaço da futura
“nação brasileira”. E o conceito de classe senhorial
está ligado “as experiências” e
“conclusões” que um determinado grupo teria vivido,
experimentado e procurado promover para manter uma manutenção do
que consideravam como ordem.
O autor
não privilegiou um espaço no texto para as análises de fontes, de
questões teóricas e mesmo das discussões historiográficas. Antes
disso, porém, optou por deixar que o leitor percebesse o
desdobramento dessas discussões ao longo da leitura do livro.
Ilmar
divide em três partes o primeiro capítulo, O Império do Brasil, por
entender que foram esses três subitens o gênesis da tentativa de
construção de um Estado e constituição de uma classe senhorial.
Para o autor, não se consegue entender esse momento da história sem
antes perceber, problematizar, as aproximações e distanciamentos;
amálgamas e rupturas entre o período do que chamou de
“necessidade de recunhagem” da moeda colonial e os anos
sessenta dos oitocentos.
Ancorados por idéias liberais, ordem e civilização, e mesmo
antes da ruptura política com Portugal, o poder constituído que
tomara posse do aparelho político-econômico cria no Brasil uma
idéia de Nação, onde os pobres deveriam ser incluídos nesse novo
modelo. Modelo estranho a essa camada da população uma vez que, sem
cidadania, tinha que preencher os requisitos exigidos pelos vários
discursos apresentados à sociedade. No entanto, esse ideal
civilizatório tinha a intenção de mascarar a manutenção do regime
econômico vigente, calcado na exploração de mão-de-obra
escrava.
Para os
Saquaremas, o projeto de um Estado forte significava monopolizar
não apenas o comércio, mas também os súditos. Para tanto produziram
“discursos de verdade” a fim de se constituírem únicos
dignitários da produção, controle e reprodução desses discursos.
Isso pode ser verificado quando da necessidade de recunhagem da
“moeda colonial”, na Maioridade de D. Pedro II, quando
o grupo Saquaremas criou a necessidade de controlar e reformular
todo o espaço urbano e rural; procurando constituir um único espaço
para a boa convivência dos homens da “boa sociedade”.
Nesses ideais de produzirem discursos que parecessem verdadeiros,
surgem também os que procuravam “inverter” ou subverter
uma ordem onde à Inglaterra era, como disse o autor, “os
novos colonizadores”, já que detinha o monopólio comercial
entre o Brasil e o restante do mundo.
No segundo
capítulo, Luzias e Saquaremas: Liberdades e Hierarquias, dialogando
com a historiografia, com fontes - como os anais da Câmara dos
Deputados, Coleção de Leis Imperiais (disponíveis para consulta no
APERJ), entre outras - o autor apresenta a formação dos grupos
Saquaremas e Luzias, e como o projeto de construção de um Estado
Forte estava ligado às idéias liberais. Igualdade, liberdade,
felicidade eram sinônimos de monopólio comercial e expansão das
riquezas desses grupos dominantes. Ele procura não discutir o lugar
dessas idéias, introduzidas de várias maneiras no Brasil - livros,
panfletos; estudantes oriundos de universidades européias,
particularmente a de Coimbra; entre outros -, e sim demonstrar como
as mesmas definiam os monopólios de fundação e diferenciação da
classe dominante. Procura também discutir e problematizar as
inúmeras relações entre esse mundo da felicidade, destinado apenas
aos cidadãos, ou seja, aqueles que eram proprietários de si e de
outrem.
Se o
discurso é antes um lugar privilegiado e exercício do poder e se
existem lutas e conflitos por sua apropriação, podemos considerar
que o “mundo feliz”, liberal, significava ser ordenado,
direcionado, controlado; e, nessa direção, procurou-se homogeneizar
os espaços territoriais que eram heterogêneos. Desta forma, podemos
destacar que os dirigentes Saquaremas produziram inúmeros discursos
de verdade, como os que estão evidenciados nas fontes, a fim de que
um Estado imperial, forte, deveria comandar três mundos, distintos
e ordenados, ou seja, o do governo: Luzias e Saquaremas; o do
trabalho: governo da casa; da rua: os desordeiros. Mundo da ordem e
o da desordem. Na ordem liberal os atos tornam-se autos. Sob a
prerrogativa da manutenção de uma ordem produzida através de
discursos que os Saquaremas consideravam verdadeiros, - discursos
políticos, econômicos, jurídicos, policiais, entre outros -, muitos
personagens do oitocentos foram sendo transformados em vadios e
vagabundos. A produção desses discursos, como num jogo de inclusão
pela exclusão, vai aos poucos incluindo alguns no mundo da desordem
ao mesmo tempo em que os exclui do mundo da ordem; da boa
sociedade. Para José Murilo de Carvalho essa parte da população,
inclusa no mundo da desordem, acabaria mais cedo ou mais tarde
atrás das grades das prisões da cidade.
Após essas
problematizações, a leitura é direcionada para a compreensão, à luz
de semelhanças, hierarquizações e diferenças, de como Luzias e
Saquaremas tentaram a monopolização do mundo do governo. Dialogando
com historiografia e com algumas fontes, o autor procura
distanciamento da idéia de um tempo saquarema engessado, inerte
entre anos pós Maioridade de D Pedro II e os anos sessenta
oitocentista. Antes, foi um tempo onde foram produzidos discursos
produtores de um saber-poder que culminou com uma
“dominação” de um tempo histórico. Para tanto salienta
que suas premissas analíticas são, segundo ele, fundamentais para
uma distinção entre sua análise e a historiografia produzida sobre
o mesmo período; ou seja, produz uma relação dialética e não
dicotômica - uma relação próxima- entre mundo do governo e da
casa.
Usando a
metáfora da teia de Penélope, mitologia grega onde Penélope tece
sua colcha enquanto aguarda seu amado Ulisses, Ilmar reserva este
último capítulo, A Teia de Penélope, intitulado para análises a
respeito das ações desenvolvidas pelos Saquaremas a fim de
consolidarem e expandirem o projeto de um Estado imperial; seja
pelos discursos civilizatórios ou pelos de reestruturação do
monopólio da mão-de-obra. Recorrendo às fontes - como relatório de
Presidente da Província do Rio de Janeiro; relatório de repartição
dos Negócios da Justiça; relatórios de ministros da justiça e dos
chefes de polícia; Falas do Trono; entre outros – e
dialogando com a historiografia, Ilmar tenta demonstrar como o
projeto do Estado imperial foi de fundamental importância para a
tentativa de centralização política e administrativa por parte
desses dirigentes.
As
intenções Saquaremas consistiam na produção de um Estado Imperial
forte, apoiado na figura do imperador, onde o papel político da
coroa seria corroborar com as idéias liberais de liberdade,
civilidade, felicidade, progresso; a constituição de uma nação já
que, existia um lugar chamado Brasil, mas não existiam brasileiros.
E seria a Coroa a responsável por assegurar a manutenção do sistema
econômico vigente, ou seja, o escravista. Para justificar suas
análises recorre a argumentações de Jeremy Bentham, discutidas em O
Panóptico, onde compara a Coroa, na sua tentativa de manutenção
dessa ordem econômica, ao olho do poder - a Corte, Rio de Janeiro,
seria o lugar estratégico onde estaria esse “olho”-. Se
comparadas às teorias de Foucault, a respeito de um poder
disciplinar, posso arriscar em dizer que a Coroa corroborou no
papel de análise e distribuição dos súditos no espaço territorial
brasileiro, bem como assegurar, através de discursos jurídicos,
policiais, econômicos, entre outros, uma vigilância constante sobre
atores e espaço. Ainda seguindo os passos de Foucault desta vez
quando de suas análises sobre lugares que chamou de seqüestro, me
arriscaria mais uma vez a dizer que nessa necessidade de ordenar
esse mundo, a Coroa acabou por transformar esse território em um
lugar de seqüestro à medida que tenta docilizar o corpo social.
Por
fim, analisa a restauração limitada, discute a historiografia
produzida na segunda parte do XIX e problematiza a idéia de
continuidade do chamado tempo saquarema. Mais uma vez procura
romper com a com a historiografia da época onde, mais uma vez,
destaca que a mesma apenas se restringiu às análises econômicas
para explicar a consolidação do Estado imperial, ignorando
conflitos e confrontos políticos, econômicos e sociais.
Problematiza a questão do fim do tráfico negreiro como sendo,
segundo os saquaremas um empecilho à soberania nacional. Para ele o
paradoxo entre um estado escravocrata e uma política antiescravista
fazia parte das estratégias saquaremas a fim de consolidar o
Estado. Usando a proibição do tráfico o grupo procura camuflar suas
vulnerabilidades, ao mesmo tempo em que usa essa mesma mão-de-obra
para manter o sistema escravista em pleno funcionamento. Destaca
que, para isso, muitos usaram discursos chamados por ele de
“inversão”.
Conclui
que ordem e civilização foram necessários temas sempre em pauta
para a restauração e formação de um Estado imperial, e, que, o que
o inverso seria inviável às pretensões progressistas dos
conservadores. Que o real sentido da ordem foi à tentativa de
monopolização do comércio através da propagação de discursos que
visaram à disseminação de um mundo ordenado. Dialogando com fontes
relacionadas aos dirigentes saquaremas, diz que durante todo o
tempo esse grupo, como numa teia de Penélope, teceu mecanismos de
dominação e controle sobre o tempo-espaço. Finaliza dizendo que
ainda podemos perceber esse tempo saquarema quando verificamos
conchavos, ideologias, entre os que são “responsáveis”
por dirigir o país.
Bibliografia:
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Organização e tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte:
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